Mortes em confrontos e a relatividade dos números

30 ago

Não é novidade para quem acompanha as notícias sobre polícia e direitos humanos que todo ano alguma ONG divulga um relatório execrando as polícias, principalmente a PM, acusando uma corporação inteira de praticarem homicídios e, de maneira generalizada, justificar toda morte em confronto de “supostos” criminosos como execuções policiais.

É lógico que não pretendo justificar os assassinatos cometidos por agentes do Estado (veja bem, ASSASSINATOS e não estrito cumprimento do dever legal), esses devem ser combatidos como todo crime deve ser. Contudo, analisando os números por outra perspectiva é possível perceber que, ao contrário do que se propaga, as polícias – proporcionalmente – têm diminuído sua letalidade. De onde tirei isso?

Desse artigo, escrito por Humberto Wendling, Agente de Polícia Federal, em seu blogue. Segue trecho:

Mas, afinal, a polícia brasileira mata mais ou prende mais? Considerando os dados do Ministério da Justiça referentes à população carcerária no Brasil em 2010 (496.251 presos), pode-se afirmar que a polícia prende mais, pois 496.251 presos para 700.000 policiais representam 70,89% do potencial de trabalho sem violência da força policial, considerando que durante um ano cada criminoso tenha sido preso por apenas um policial. E não é só isso! A cada ano a população carcerária aumenta numa proporção maior que os óbitos provocados pela polícia. Só para você ter uma noção, de 2000 (232.755 presos) a 2010, a população nas unidades prisionais cresceu 113,20%. Além disso, outro relatório do Ministério da Justiça informa que as polícias militares e civis brasileiras prenderam 4.838.345 criminosos em virtude de delitos em flagrante, mandados de prisão e recaptura em 2007. O número de presos, eu repito, foi de 4.838.345. E você sabe quanto representa a morte de 1.693 pessoas (supostamente atribuídas aos policiais brasileiros) em relação ao total de presos? 0,03%.

Fonte: http://comunidadepolicial.blogspot.com/2011/07/e-se-policia-dormir.html

Como podemos perceber, quando se trata de polícia a matemática nem sempre se torna uma ciência exata e os números podem ser manipulados da maneira que convém.

 

Gladiadores

17 ago

Um trabalho antigo do Tião Ferreira que é desenhista de quadrinhos, animador, estudante de História, ex-palhaço de circo, ex-carteiro, ex-policial militar e, atuamente, policial civil.

O autor prometeu criar novos trabalhos especialmente para o blogue… Assim que tiver tempo.

 
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Ordinário, marche!

16 jun

A rotina de um quartel é rígida, a disciplina é constantemente cobrada. Com essa justificativa, alguns superiores frequentemente confundem ajustes de conduta com abusos de autoridade ou treinamento árduo com demonstração de sadismo. Durante cursos de formações as turmas normalmente se deslocam de um lugar para outro de maneira uniforme, seja correndo, caminhando ou marchando, assim como obrigam os formandos a práticas inúteis, apenas para alimentar o ego do instrutor ou reforçar a condição de inferioridade de seus comandados.

Certo dia, após intenso treinamento físico, os pelotões estavam em forma há algum tempo esperando a ordem para avançar até o rancho. Já havia passado uns bons minutos e os alunos continuavam no sol, com fome e sede, aguardando a autorização para almoçar. Por que isso? Simplesmente porque um capitão achou por bem dar-lhes esse castigo, sem qualquer justificativa, pois julgava que aluno deveria suportar tudo.

Aí um dos alunos pediu autorização para falar e disse:

- Capitão! Permissão para quando sair do quartel ir até o Ministério Público denunciar a prática de tortura nesse curso.

- Como é aluno!? Tá ficando doido!?

- Não senhor! É que passamos o dia inteiro no sol, sem beber água, sem nos alimentar e alguns já começam a passar mal. Se eu ou alguém desmaiar aqui irei relatar o fato ao MP.

O capitão, puto da vida, resmungou que hoje em dia os alunos estão muito folgados e liberou a turma para o refeitório (marchando, é claro).

 

História originalmente publicada em um comentário no blogue Abordagem Policial e aprimorada após tweets do @Cathala.

 

Formar para servir… A quem mesmo?

04 jun

Infelizmente não tenho como discordar da ilustração abaixo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É Treta, mano!

 
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Casa Grande e Senzala

04 jun

Na época da escravidão, como todos sabem, os negros eram considerados apenas uma mercadoria. Um objeto que poderia ser utilizado por seus donos da maneira como bem entendessem. Abusos eram recorrentes e é óbvio que quem sofre a condição de dominado dificilmente se conformará e não lutará para mudar seu destino. Esses que brigavam por seus direitos eram marginalizados e considerados perigosos, criminalizados por desejar tão somente ser respeitado enquanto ser humano. Conter os revoltosos era uma tarefa ingrata, penosa e repugnante até para seus “donos”, que nem sempre estavam dispostos a realizar o trabalho sujo. Então surgiu a figura do Capitão-do-mato.

Para entender melhor o que esses homens faziam, recorro a uma breve explicação do Wikipédia:

“O Capitão-do-mato era na origem um empregado público da última categoria encarregado de reprimir os pequenos delitos ocorridos no campo. Na sociedade escravocrata do Brasil, a tarefa principal ficou a de capturar os escravos fugitivos.

O termo capitão-do-mato passou a incluir aqueles que, moradores da cidade ou dos interiores das províncias, capturavam fugitivos para depois entrega-los aos seus amos mediante prêmio.

Os capitãos-do-mato gozavam de pouquíssimo prestígio social, seja entre os cativos que tinham neles os seu inimigos naturais, seja na sociedade escravocrata, que os considerava inferiores até aos praças de polícia, e os suspeitava de seqüestrar escravos apanhados ao acaso, esperando vê-los declarados em fuga para depois devolvê-los contra recompensa.”

Ironicamente, muitos dos homens que detinham tal ofício eram justamente outros negros que – para escapar dos martírios da senzala – traíam seus pares em troca de efêmeros benefícios. Vantagens ilusórias que lhes faziam acreditar serem diferente dos “irmãos” que perseguiam como animais. Ainda pior, julgavam-se semelhantes aos seus patrões, que por sua vez não lhes rendiam considerações.

Felizmente muita coisa mudou desde esse período. Muito embora as classes sociais populares ainda sofram com o descaso dos governos (independente da ideologia partidária). Hoje não temos o regime escravo, mas temos o proletariado. Daí as constantes lutas sindicais em buscas de melhorias não apenas salariais, como também no avanço das condições de trabalho.

Em se tratando de movimentos na esfera da segurança pública percebemos ainda uma situação do tipo “capitão do mato”. Aquele sujeito que cerca de bajulações seu “Senhor” em troca de algumas honrarias, cargos ou mesmo por gratificações que tão logo se mude o quadro de lideranças, provavelmente será descartado substituído.

Entristece saber que alguém que conhece (ou deveria ter ciência) a realidade dos profissionais de segurança ignore a classe que também está inserido. O que é pior, persegue outros que compartilham de uma mesma farda, lutando por avanços, sacrificando a própria liberdade. De maneira covarde se esconde sobre a pecha da “hierarquia e disciplina”, esquece os valores do companheirismo e honra. Qualidades tão valorizadas por aqueles que combatem diariamente os verdadeiros inimigos da sociedade.

É revoltante pensar que nos dias de hoje, mais de 120 anos depois da abolição da escravatura e 23 anos após o fim da ditadura militar no Brasil, trabalhadores ainda tenham que enfrentar prisões, perseguições e processos por não compactuarem com as aberrações existentes no país que se diz democrático.

É perturbador saber que seus gritos ecoam quase sempre silenciosos ou quando são ouvidos, suas vozes são deturpadas, manipuladas em benefício dos que detém o poder. Quem é oprimido se torna baderneiro. Não basta castigá-los no tronco dos regulamentos disciplinares, é preciso execrá-los para que sirvam de exemplo para que outros não façam o mesmo.

Apesar de tudo, assim como a escravidão teve seu fim, acredito que teremos dias melhores. Tempos em que, além da honra natural de servir à sociedade, esses homens sentirão também o orgulho de ter contribuído para a evolução das nossas instituições. Não sem união, não sem perseverança.

 
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Um difícil sacerdócio

01 jun

A avenida era movimentada. Mesmo possuindo duas vias, sempre estava abarrotada de veículos. Às suas margens, inúmeros restaurantes pomposos e lojas refinadas davam uma ideia do tipo de público que transitava por ela. Ainda assim, nada impedia a presença das crianças maltrapilhas nos semáforos, fazendo caras e bocas a fim de sensibilizar os motoristas. Algumas arriscavam números circenses, na ilusão de achar que malabarismo na faixa de pedestre é melhor do que mendigar.

Os veículos sempre com pressa. A imprudência – disfarçada na “falta de tempo” – podia ser vista claramente nos carros importados que “cortavam” o sinal vermelho, nas ultrapassagens pela direita ou mesmo nos retornos proibidos. Era nesse cenário que o soldado Cério* tirava diariamente seus serviços. Ele fazia parte do efetivo do trânsito, que dentro da força policial é o setor mais conhecido por casos de corrupção (talvez por ser o mais assediado). Geralmente pequenos desvios de condutas que seduziam alguns policiais com suas ofertas inescrupulosas. Acontece que nem todos eram assim, para o azar de muito “cidadão de bem”.

Desse modo, o soldado Cério seguia com sua rotina. Ele era famoso por ser “caxias”, que no jargão militar pode ser entedido como o policial correto, avesso às “facilidades” das ruas. Justamente por sua caixagem que começaram a surgir os problemas. Seus colegas comentavam que sua caneta era “afiada” demais. O que deveria ser um exemplo a ser seguido, normalmente era motivo para comentários irônicos. Todo serviço, era quase certo o preenchimento do talão de multas por completo. Se a polícia pagasse por produção, sem dúvidas ele teria os melhores rendimentos.

Certa vez, uma senhora passou conduzindo seu veículo ao mesmo tempo em que conversava ao telefone. Não deu outra.

- Piiiiiiiiiiiiiiii!

Lá estava o soldado Cério, que parecia ter olhos de águia na hora de identificar as placas dos veículos. Após o silvo do apito, a mulher retorna sua atenção para o trânsito e percebe pelo retrovisor que o guarda rabiscava algo em sua prancheta. Ela decide voltar.

- Boa tarde seu guarda. Por acaso o senhor está me multando?

- Boa tarde, não era a senhora que falava ao telefone enquanto dirigia?

- É que era uma emergência, não pude deixar de atender.

- Bom, eu também não posso deixar de multá-la. Espero que a senhora compreenda que é meu trabalho.

- Ora, deixe disso. Eu não atropelei ninguém! Foi só uma ligação rapidinha, por acaso eu fiz alguma barbeiragem?

- Senhora, é apenas uma multa. O valor acredito que não será problema, a julgar pelo tipo de seu carro. E os pontos não serão suficientes para perder sua habilitação.

- Você sabe quem é o meu marido?

- Não! Também não estou curioso.

A mulher, percebendo que não conseguiria “sensibilizar” o policial, decide ir embora resmungando algo.

No final do expediente, já no seu batalhão, é o comandante quem resolve conversar com ele.

- Cério, por que você foi brigar com a mulher do deputado Argônio*?

- Major, não briguei com ninguém.

- Porra, Cério, então por que o deputado me ligou puto dizendo que um policial multou sua esposa e que ainda foi grosso com ela!?

- Sinceramente, não sei. Ela queria que eu desfizesse um procedimento e o senhor sabe que essas coisas não tem volta.

- Caralho, assim você quer me fuder! Deixa de ser radical. Qual foi o motivo?

- Ela passou por mim dirigindo enquanto estava no celular.

- Cacete! Que besteira, você mete a caneta por qualquer bobagem. Deixa rolar… A gente tem mais com o que se preocupar do que madame dirigindo e falando no telefone. Maneira com esses rabiscos!

- Major, é o seguinte: o senhor me conhece, não sou de procurar serviço. Mas também não faço vista grossa. É muita desmoralização as pessoas passarem em frente a um policial do trânsito e ainda cometerem irregularidades. Meu trabalho não é esse? Se não fosse pra fazer nada, pra quê eu fico lá todo santo dia plantado naquela avenida debaixo de um sol escaldante!?

- Você me entendeu, maneira aí. Tem coisas que a gente não precisa levar tão a sério. Além disso, o deputado é amigo meu, tem apoiado a polícia…

- Sei…

- Pega leve, Cério! Pega leve!

Alguns serviços e multas depois, Cério se depara com uma colisão. Responsável por fazer o laudo técnico, ouvir testemunhas e envolvidos, bem como desenhar o croqui (esboço de desenho que indica o posicionamento dos veículos), entre outras coisas.

Um dos motoristas, ao perceber que havia causado o acidente, e ainda assim não estava disposto a arcar com as consequências de sua barbeiragem, tenta “persuadir” o policial, que se faz de desentendido para evitar medidas mais drásticas. Insistente, o condutor do veículo resolve utilizar da influência de seu pai, pois lembrara que sua família é amiga do major, comandante da polícia de trânsito. Pouco depois o celular do guarda toca. Era o oficial.

- Cério, é o seguinte. Eu sei como você trabalha, mas esse menino aí é gente minha. Dê um jeito no problema dele. Isso não é um pedido, é uma ordem! Ouviu?

- Comandante, farei o que estiver ao meu alcance.

Persuasões, interesses, intimidações… Nesse jogo as palavras devem ser ditas com cuidado. As ações, cautelosas. “O que eu faço?” pensa o policial que se vê entre a cruz e a espada. Não há maneira de ajudar o imprudente motorista sem prejudicar outras pessoas, além de não ser ético é ilegal. Atender a determinação do major é ir contra todos os seus princípios. Até que ele decide…

- Que se foda!

Cumpre sua obrigação, faz tudo como determina a Lei, independente do que anseava seu superior. Mas ele estava ciente que dessa vez não passaria em branco. Apesar da consciência tranquila, certamente sofreria represálias. Sabia que dificilmente o major poderia atingi-lo instaurando algum procedimento que comprovasse seu desvio de conduta. No entanto, quem conhece as entranhas do sistema sabe que – de um jeito ou de outro – as retaliações atingem àqueles que batem de frente. No caso do soldado, transferência para um batalhão situado em outra cidade, distante de sua residência, fato que alteraria toda sua rotina.

Sem gozar do mesmo prestígio nos bastidores, restou a Cério reorganizar sua vida para se adaptar ao novo local de trabalho. Numa mistura de revolta, insatisfação e impotência ele se questiona se tudo isso vela a pena. O que ganhara em troca durante anos de idoneidade? Recompõe-se, aceita de maneira resignada sua mudança e se convence que sua dignidade e honra não foram abaladas. Paralelo a isso, o motorista infrator – com a ajuda do major – conseguiu minimizar sua responsabilidade na colisão. Pouco mudou sua rotina, continuava conduzindo seu veículo de maneira imprudente, arriscando sua integridade física e a de outras pessoas.

Algum tempo depois, quis o destino que o policial e o rapaz causador de sua odiada transferência se encontrassem novamente. Um novo acidente, uma única vítima, um único culpado. Capotamento na rodovia após a perda do controle do veículo, certamente em alta velocidade. Cério reconhece o homem morto entre as ferragens, agora sem chances do major ajudá-lo. É nesse momento que o soldado tem uma estranha sensação. Não era satisfação em vê-lo pagar com a vida seu desrespeito às leis. Isso seria mesquinho demais. Foi mais uma certeza, uma confirmação de que seu trabalho era importante, algo que estava acima de seu orgulho. Foi a comprovação de que fazer o certo valia a pena. Que seu ofício vai além de penalizar infratores, sua obrigação era – acima de tudo – salvar vidas.

Atenção! Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, fatos, lugares e pessoas terá sido mera coincidência.

* Nomes fictícios retirados da tabela periódica.

 

A necessidade de equipamentos não letais no serviço policial

27 mai

Quando se fala em serviço policial, imagina-se quase sempre o clássico confronto “Polícia x Bandido”. Sem dúvidas, essa é a função que exercemos mais lembrada pela população. A ponto, inclusive, de algumas pessoas acharem que tal empreitada seja o nosso único labor. No entanto, engana-se quem acredita que nossa única missão seja prender criminosos. Polícia deve ser sinônimo de ordem social, por isso boa parte das chamadas de emergência não são necessariamente para prender ladrões. Mas sim para resolver pequenos distúrbios, crises familiares, perturbações de sossego, entre tantas outras situações em que a comunidade – sem saber exatamente a quem recorrer – solicita a presença da polícia.

Claro que em grande parte dessas situações o uso letal da força, ou seja, a utilização de armas de fogo seria – teoricamente – caracterizada como excesso. É justificável balear um homem de posse de uma faca ou qualquer outra arma branca que ameace sua ex-companheira ou terceiros? É igualmente inadmissível que o policial tenha que escolher entre morrer ou matar em possível confronto, nesse último caso talvez sendo execrado como despreparado ou assassino, podendo até ser responsabilizado criminalmente. Não à toa, o bordão amplamente difundido entre policiais “melhor ser julgado por sete do que carregado por seis” é levado a risca. Responder pelo excesso é certamente melhor que pagar com a vida pela hesitação. O vídeo abaixo ilustra bem a complexidade do serviço.

Homem enfurecido mata policiais a facadas

 

Apesar de portarem até fuzil (AK-47) e bastões, não existiam outros armamentos menos letais. Talvez inibidos pela equipe de tevê eles se furtaram de agir energicamente, sendo obrigados – tardiamente – a disparar contra o agressor. Toda essa tragédia poderia ser evitada com a simples utilização de uma pistola teaser, que dispara descargas elétricas incapacitando temporariamente o alvo.

No Brasil, as Polícias Militares enfrentam situações semelhantes. A disponibilidade de equipamentos e capacitação profissional normalmente se restringem às equipes de elite, justamente aquelas que não são utilizadas de imediato. O investimento em armamentos não letais ainda é visto com desconfiança por parte da corporação, pois se especula que essas aquisições serão realizadas em detrimento da compra de armas de fogo. Externamente – pasmem – há quem se manifeste de maneira contrária, justificando sua opinião alegando que tais apetrechos serão utilizados como utensílios para tortura.

Para quem lida diariamente com esses sinistros é desejável que o Estado invista seriamente nesse ponto, tornando possível ao policial aplicar corretamente o Uso Progressivo (ou Moderado) da Força (UPF), resguardando vidas e evitando aborrecimentos administrativos. Policial ou não, opor-se à aplicação dessas tecnologias por receio de utilização indevida é contribuir para que se eleve as probabilidades de mortes em ocorrências, uma vez que – diante das opções limitadas – o policial será obrigado a escolher entre matar ou morrer. Sem meio termo.

 

O que pensam os familiares dos policiais?

06 mai

Sabemos que o trabalho policial não é nenhuma maravilha. Enfrentar as agruras da população é uma missão árdua, principalmente por se fazer parte dessa mesma sociedade. A preocupação que os trabalhadores em segurança pública sentem ao sair de suas casas e deixar a família é recíproca. Assim, difícil mensurar o que uma mãe ou pai, filho ou filha, marido ou esposa de policiais sentem ao ver seu ente querido partir para mais uma jornada de labuta, sabendo que apesar de esperar sempre o melhor, o destino é incerto, algumas vezes sombrio. Claro que TODOS estão sujeitos às surpresas da vida (ou morte). No entanto, por se tratar do serviço policial é notório que as chances de se envolver em um sinistro são consideravelmente elevadas.

Comigo não poderia ser diferente. Tenho parentes que se preocupam, tento poupá-los de algumas verdades perturbadoras, como faço com minha mãe sempre que chego em casa e sou perguntado se “foi tudo tranquilo”. Já com meu irmão é mais fácil conversar sobre o assunto. Tanto que se preciso dar alguma notícia é para ele que dou o recado.

Foi o que fiz certa vez quando estava de serviço e uma quadrilha fortemente armada roubou o banco da cidade que trabalho. Mesmo sem ter ocorrido o confronto, a prioridade era seguir na caçada aos bandidos. Em meio à essa adrenalina lembrei da possibilidade do fato já ter virado notícia através da imprensa e consequentemente ser de conhecimento de meus familiares que eu não estava em um “dia bom”. Decidi ligar para meu irmão que estava bem, tentando evitar especulações quanto à minha condição caso já soubessem do que ocorrera e não conseguissem contato comigo. Por ironia, o efeito foi contrário, pois a comunicação não foi das mais eficientes. Fato que desencadeou o desabafo abaixo.

“Normalmente não tenho o hábito de externar preocupações acerca de meu cotidiano, mas recentemente aconteceram determinados fatos que me fizeram questionar tais coisas, felizmente ou infelizmente não fazem parte do meu cotidiano propriamente. Vivencio um lado ameno da situação. Interessante perceber como as coisas acontecem em torno dos que participam da vida de alguém que trabalha na segurança pública.

Quando saio para ir ao escritório tenho minhas preocupações e anseios isto é meio óbvio, todos nos preocupamos: o risco de um acidente no trânsito, uma enchente, necessidade de ir ao banheiro ou até mesmo um assalto. Situações corriqueiras simples, mas muitas vezes me pego pensando sobre o que poderia acontecer de errado e analiso possibilidades para sanar tal problema, me pego viajando em idéias e hipóteses até que ao me aproximar do escritório.

(Toque do celular) “Mas é tão bom estar com vocêêê, pertinho do coração”

- Alô!

- Ei, tô ligando só pra avisar. Teve um assalto num banco aqui da cidade que trabalho, estamos perseguindo os assaltantes. Mas tá tudo bem! Avisei porque você sabe como Mainha e o povo lá em casa são assustados. Tchau.

-Ok, tome cuida… (ops, ele já desligou o telefone).

Sei que mandar ter cuidado soa redundante, mas é a única coisa que podemos fazer. Mandar ligar para polícia não é a melhor idéia. Afinal, ele faz parte da corporação.

Então o que posso fazer? Rezar, continuar pensando em possibilidades. Acreditar que ele terá prudência e cautela, na verdade gostaria que ele tivesse super habilidades como um super herói.

Batman, não!

Prefiro o Super-Homem um tiro não pode afetar ele.

Será que ele está de colete a prova de balas? Será que ele está com armamento melhor que os bandidos? Argh! Tenho que me tranqüilizar, ele é bem preparado, ele participou do curso de formação.

Que droga, a quem eu quero enganar!? Aquele curso não prepara nada, é muito ruim, pouca coisa se aproveita. Se ele não tivesse interesse e fosse atrás de estudar e se atualizar estaria em piores condições.

Ao chegar no escritório tenho uma certeza, a certeza do que estou ali para realizar. Quais são minhas obrigações profissionais? O que preciso fazer para ser bem sucedido em minha labuta? É fácil, como estagiário, elaboro peças jurídicas, acompanho processos, coisas simples e corriqueiras para minha profissão. Mas como irmão de policial militar a realidade não é tão simples assim.

Mas a quem isso pode interessar senão a mim e aos familiares de quem está para servir?

Afinal, tem aquela velha frase “polícia de longe faz falta, de perto incomoda”. Quando se está tão perto assim esta frase é potencializada. Não diria que perto me incomoda, porém, saber que ele está de serviço me deixa aflito, com pensamentos distantes e torcendo que o cotidiano não mude, não hoje, não no dia que ele está de serviço”.

 

Calibre Restrito – A palavra como poder de fogo

26 abr

O nome é sugestivo. A frase que o acompanha é agressiva instigadora. Você – amigo leitor – que testemunha o nascimento de mais um blogue policial, deve imaginar que com esses atributos esse site não será apenas mais um em meio à blogosfera. A apresentação dele parece pretenciosa, mas sem grandes aspirações quanto ao que singelas postagens possam fazer. Evidente nele, apenas o desejo de falar sobre polícia. Pura e simplesmente emitir minhas opiniões livre de cunhos sindicalistas, embora almejando sempre a melhoria da categoria.

Falar sobre polícia me agrada. Não me incomoda conversar sobre o tema nos momentos de folga ou responder questionamentos de curiosos sobre como é o meu trabalho. Desde que parei de escrever no Diário de um PM percebi que deveria continuar tecendo meus comentários além do twitter, só que dessa vez sem tanta expectativa. E assim pretendo fazê-lo.

E é difícil voltar a escrever, principalmente porque quis retornar com um blogue organizado, algo quase profissional. Percebeu que o domínio é próprio? Investi um pouco nesse sentido, então você pode acessar o blogue através de dois endereços: www.calibrerestrito.net ou www.calibrerestrito.com.br. Os dois vão cair no mesmo lugar. Sabe outra dificuldade encontrada? O layout. Queria algo exclusivo ou que pelo menos não fosse tão comum e que logicamente fizesse alusão à temática. Só que raramente se encontra templates direcionados aos policiais e militares (gratuitos ou não). Nessa busca, simpatizei com esse que pelo nome (chocotheme) deveria lembrar chocolate, no entanto, visualizei umas costuras daqueles coldres de couro. Pois é, o desespero faz a gente forçar a barra de vez em quando. A propósito, agradeço o imprescindível apoio dado pelo Danilo Augusto, do In/Out Tecnologia que com sua paciência diante de minha ignorância técnica praticamente fez o parto desse blogue.

Então, é isso. Ainda faltam alguns ajustes, aos poucos ele ganhará identidade. Novas postagens surgirão, algumas bobagens… Outros assuntos mais sérios. Mas o bom da internet é mesmo a interação. Sendo assim, qualquer sugestão de tema ou contato para parcerias é só me procurar no @flaviohand ou enviar um email para calibrerestrito[arroba]gmail.com

 

Para quem não conhece: Flávio Henrique é jornalista diplomado, policial concursado e blogueiro por teimosia.